O papel de artistas mulheres na luta contra o feminicídio

Mulheres de todas as idades, cores, corpos e histórias marcharam sob o sol ou chuva de suas cidades no último domingo, 7 de dezembro de 2025. O lado masculino do Brasil foi forçado a ver nossa dor, empunhada nos cartazes, batida forte nos tambores e gritada alto em palavras e cantos.  O recado a partir daqui é claro e uníssono: Não aceitaremos mais morrer caladas!

A Marcha Nacional “Mulheres Vivas” foi um levante, também artístico, contra o feminicídio e contra esse silêncio ensurdecedor da impunidade em todas as estruturas e camadas institucionais e intrafamiliares. As frases e artes dos cartazes trouxeram arrepios, provocaram lacrimejar e nós na boca do estômago. Infelizmente, mesmo depois do movimento que tomou diversas capitais, essa semana já houve mais um caso de extrema crueldade divulgado pela imprensa ( não será citado para evitar mais gatilhos e desespero em nós, que sentimos nas entranhas o desespero da consciência de que poderia ser conosco, ou pior, com nossas filhas).

E é na arte e na escrita solta, como sempre, que me faço ferramenta para quebrar esse silêncio e adentrar aqueles que ainda negam a urgência secular de unir forças para salvar a vida das mulheres, das crianças que se tornam órfãs e as das novas gerações – pois, até onde acompanho, ainda não inventaram como gestar seres humanos fora de um útero de mulher, mas já sabemos engravidar por inseminação artificial (olha que ironia!). Inclusive, aproveito para questionar se vem daí tantas formas de aniquilar e subjugar mulheres? Ao longo dos séculos, a misoginia vem sendo reformulada e reforçada por vertentes filosóficas e psicanalíticas encabeçadas por homens. É de conhecimento popular que Freud chegou a conceituar uma tal “inveja do pênis”, que batizou de complexo de Édipo… Perceptível a negação de que a verdadeira inveja vem deles, de se saberem incapazes de ter herdeiros sem uma mulher como protagonista, como rebateu brilhantemente a filósofa Karen Horney.

Diante disso, onde estavam os pais, irmãos, amigos, filhos e companheiros que não fazem parte dessa estatística de violentadores de mulher? Havia homens, poucos. Talvez eles não saibam, mas nossa pergunta não é por não sabermos a resposta. Sabemos tanto que fomos para as ruas. É uma provocação para tentar arrancar dos homens por quem temos afeto alguma reação que nos faça seguir os admirando depois desse sacode todo. Porque os dados e manchetes evidenciam que é preciso temer, para não virar estatística…

O Brasil já ultrapassou 1.180 feminicídios em 2025, até novembro. Goiás está entre os dez estados com maior incidência de violência doméstica, ocupando a 9ª posição no ranking nacional. A cada 17 horas, uma mulher é assassinada por razões de gênero no país (dados do CNJ, TJGO e Rede de Observatórios da Segurança).

Venho de uma família marcada por violências sistemáticas contra mulheres. Escrevo e pinto há anos sobre isso. A arte é resistência, mas não basta. Precisamos de políticas públicas, justiça e coragem coletiva para mudar esse cenário.

Canais de denúncia:

– Central de Atendimento à Mulher – 180

– Polícia Militar – 190

– Delegacia da Mulher (Goiânia) – (62) 3201-2802

– Disque Denúncia Goiás – 181

– Defensoria Pública de Goiás – (62) 3201-3600

– Ministério Público de Goiás – (62) 3243-8000

Por Ketllyn Fernandes – artista plástica, jornalista pós-graduada em jornalismo digital