Artistas mulheres contra o feminicídio

Obra Sou Casa, de 2022 – por Kettly Férnandes

O pacto firmado pelos Três Poderes contra o feminicídio é um gesto histórico.
Admitir que a violência contra mulheres e meninas é estrutural impõe o debate
público e todas as esferas formadoras de opinião, dentre elas, a produção
artística. 


Somente uma força coletiva pode abrir caminhos para justiça e igualdade entre
os gêneros, num contexto complexo de polarização onde a política tem
moldado relações interpessoais e distorcido o conceito de família. É em casa
que se inicia todo um processo de pertencimento e entendimento da vida,
ponto de partida para várias artistas mulheres em suas pesquisas. Para muitas
de nós, também é no “lar” que as primeiras violências ocorrem e dão brechas a
tantas relações que desembocam no que os noticiários mostram todo dia. 


A luta encabeçada por mulheres é antiga, mas na contemporaneidade, as
ferramentas de alcance virtual têm permitido um grito mais alto. E as artistas
sabem e usam a nosso favor. A recente Marcha Nacional “Mulheres Vivas” foi
um levante contra o silêncio institucional que sustentou as estatísticas até aqui.
O  pacto nacional, instituído em agosto de 2023, é uma resposta, que mesmo
tardia, impõe o que misóginos devem receber por seus crimes. 


E, por trás de todo esse enfoque à causa pró-vida das mulheres, estão as
artistas, sustentando a comunicação visual e subjetiva, de forma criativa, com
poética, imagens e textos, nos cartazes e músicas engajadas, que provocaram
lágrimas e nós no estômago. A canção “Maria da Vila Matilde”, eternizada na
voz de Elza Soares, que o diga. E, dando o devido crédito, composta por
Douglas Germano. 


É na arte e na escrita que muitas artistas se tornam ferramenta ativa para
romper esse sistema que mata mulheres. Então, ser mulher e artista é um ato
político. A arte, que circula livremente em perfis nas mais diversas redes
sociais, denuncia e sensibiliza e pode ser o início de uma conversa sobre
mulheres salvando mulheres.  Atinge e conscientiza, principalmente aquelas
que ainda não perceberam que são vítimas em potencial. 


Esta é mais uma convocação escancarada para os pais, irmãos, amigos e
companheiros, artistas homens que não fazem parte do grupo que comete a
violência! O lema “Todos por todas” é, neste primeiro momento, uma
provocação sim: queremos e devemos exigir a reação deles. Para que
possamos continuar admirando esses homens que fazem parte da nossa vida,
precisamos que se posicionem nas rodas de amigos, dentro da família, no local
de trabalho. Se juntar ao nosso coro é mostrar mostrar que virão
consequências àqueles que pretendem ser possíveis agressores (muitas vezes
já o são, sabe-se que começa aos poucos e há formas sutis, talvez até sem
que eles próprios percebam).

O Brasil ultrapassou 1.180 feminicídios em 2025. A cada 17 horas, uma mulher
é assassinada por razões de gênero no país (dados do CNJ, TJGO e Rede de
Observatórios da Segurança).


Arte é resistência em mais esta causa humanitária, mas sem políticas públicas,
justiça e coragem coletiva, o cenário não mudará. A transformação na estrutura
exigirá ação coletiva para que agressores sejam punidos. Estamos no caminho
certo, árduo, mas caminhando rumo a um futuro em que nossas filhas não
sentirão tanto medo, apenas por terem útero. 

Por Ketllyn Fernandes – artista plástica, jornalista pós-graduada em jornalismo
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