
Em mais de 40 dias, tempo que vejo suficiente para que goianos vivessem algo raro em nosso panorama cultural (resguardadas as devidas condições de acesso à cultura, nosso problema estrutural), tivemos a passagem da 36ª Bienal de São Paulo em nossa terra. Em 11 anos do projeto de itinerância, esta é a primeira vez que a maior mostra do hemisfério sul vem até nós. E esta chegada, claro, envolveu logística, bastidores e empenho da atual gestão da Secult Goiás. Reconhecer esforços de ambos os lados é justo e motivador. Pois a presença da Bienal aqui é vislumbre de mais oportunidades como esta!
Para mim, não foi apenas um “evento” ou passeio. Tive uma experiência que me atravessou, possivelmente por alguns privilégios de acesso desde os bastidores. Estive no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC-GO) ao menos oito vezes neste período (perdi as contas). Algumas por trabalho na assessoria de imprensa, algumas durante o curso de formação de monitores locais ministrado pela equipe de Educação da própria Bienal SP, e três simplesmente porque precisava caminhar de novo por aquelas obras — levei amiga e família, além da minha filhota. E, no balanço desta experiência, estive, intencionalmente, como artista e jornalista cultural. Dois lugares que insistem em caminhar juntos comigo.
O que, curiosamente, passeia lado a lado com o tema desta Bienal: “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”. Caminhei pela exposição como quem sente primeiro e escreve depois, etapas cruciais num trabalho jornalístico ético. Observei motivações artísticas que se cruzavam de forma rica, subjetiva e, muitas vezes, atemporal. Senti rebuliços da infância à gestação. A tal “viandança” proposta pela curadoria não estava apenas na curadoria.
A exposição se revelou múltipla, como precisava ser. Escrevi uma reflexão autoral sobre atravessá-la em Goiás a partir do lugar de quem cria e comunica arte, sempre aprendendo. Entrevistei Sallisa Rosa, artista que transforma território, respeito e Terra em matéria-prima e pensamento vivo. Compartilhei registros e impressões no Instagram, aproximando essa vivência de pessoas diferentes, com repertórios e olhares diversos, que me acompanham por lá.
Essas aproximações entre arte, escuta, escrita e mediação cultural dizem muito do que venho buscando profissionalmente. Minha história como “menina do interior” passou por mim muitas vezes durante esse percurso. Só tive acesso mais consistente às artes a partir da adolescência, quando me mudei para a capital. Hoje, entendo melhor que a vida não é linha reta. Já tinha percebido isso, mas a invocação central da 36ª Bienal apaziguou frustrações pelas escolhas (forçadas) que atrasaram este encontro entre comunicadora e artista. Como temos repetido entre artistas, existem caminhos outros.
A itinerância da Bienal se despede de Goiânia neste sábado, 19 de abril. Por fim, fico com a sensação de que parte da imprensa local não soube aproveitar essa pauta com a profundidade que grandes exposições exigem. Ainda assim, os números e, principalmente, as pessoas dizem muito. Mais de 20 mil visitantes passaram pelos corredores circulares do MAC-GO. Caravanas do interior, escolas, associações de pessoas com deficiência, públicos de todas as idades e classes sociais. Cada um assimilando à sua maneira, a partir do que tinha e do que pôde acessar. Foi realmente bonito de ver e viver.
É necessário ver arte.





