Neste setembro de 2026, me despeço da Secult Goiás, uma casa-escola que me acolheu durante cinco dos anos mais transformadores da minha vida adulta


Em julho de 2020, entrei na Secult Goiás em meio à pandemia por um convite da então chefe de comunicação, com quem trabalhei anos antes numa redação de jornal. Naquele momento, as vendas das minhas artes estavam impactadas pelas incertezas de uma emergência sanitária em que respirar era perigoso. Anos antes, me vi enfrentando um burnout grave por ter atuado como repórter-editora full-time. Cheguei a cogitar não exercer mais o jornalismo. Ainda bem que meus alicerces me fizeram corajosa! Fui. Depois passei no 1º Processo Seletivo, que se encerra agora, 1º de outubro.
Se alguém escrevesse esse roteiro, eu certamente acharia fictício demais: me redescobrir profissionalmente em um prédio histórico art déco, no coração da Praça Cívica, cercada de arte, cultura e histórias que também ajudaram a transformar a minha. Descobri, na comunicação institucional, um novo caminho para exercer meu tão suado e sonhado diploma, fruto de bolsa integral na PUC-Goiás pelo Prouni.
Mal entrei e já me conscientizei de que estava fazendo parte de um momento histórico para a cultura brasileira: a chegada da lei de incentivo emergencial Aldir Blac, a LAB, que abriu as portas para a Paulo Gustavo e originou a Política Nacional de Incentivo à Cultura (Pnab), que durante cinco anos injetará milhões ao setor artístico.
Meio sem saber por onde começar, me vi gerindo uma crise institucional, principalmente via rede social, levando respostas aos desencontros de expectativas dos artistas que se inscreviam nos editais, mas não tinham ideia de como funcionam os trâmites. Como artista, ser parte desse apoio que chegara a tantos fazedores de cultura, tornou essa experiência ainda mais significativa. Nunca me esquecerei de um agradecimento, em específico, de um artista que perguntou quem respondia às mensagem do Instagram, pois conseguiu receber e comprar remédios para a mãe. Era um sábado.
Dentre tantas coberturas de exposições, também fiz parte da equipe de suporte de quatro edições do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), incluindo a primeira realizada integralmente em formato online durante a pandemia. Conheci artistas renomados, emergentes, li sobre pesquisas e projetos para release, ampliei meu repertório sem nem perceber.
Mas esses anos também foram marcados por profundas transformações pessoais. Perdi meu pai, me tornei mãe e atravessei o luto, a gravidez, o puerpério e todas as complexidades que acompanham essas vivências. Foram tempos desafiadores, que me ensinaram sobre limites, prioridades e permanência.
Deixo registrada minha imensa gratidão à minha chefe imediata Thaís Lobo, pela confiança, pelo suporte em meio às viroses da Mia e minha reabilitação pós-parto, que cobraram da minha saúde física e mental. E à nossa secretária Yara Nunes, que foi uma das pessoas com quem construí uma relação de proximidade antes de sua chegada como titular da cultura. Embora a rotina intensa dos últimos anos tenha nos afastado um pouco dessa amiga que reformulou a forma de gerir a cultura em Goiás e entrará para história como a que, provavelmente, ocupará por tempo corrido, esta cadeira importante.
E há pessoas que extrapolam qualquer cargo ou função. Celina, minha amiga-irmã, nossa amizade nasceu no trabalho, mas seguirá muito além dele.
A Secult foi uma verdadeira escola. Aprendi ferramentas, desenvolvi novas competências e descobri possibilidades profissionais que eu sequer enxergava quando cheguei.
Saio com o coração apertado, chorosa e “bicuda”. Grata pelas oportunidades, pelas pessoas que caminharam comigo, como os coordenadores da Vila Cultural Cora Coralina (Gilmar), Centro Cultural Octo Marques (Dirce e Débora), e Museu da Imagem e do Som ( Vitória Régia, Keith, Gisele e Leslie), e tantas, tantas outras pessoas, inclusive aos artistas que cruzaram essa caminhada.
Tenho a sensação de que estou encerrando um ciclo importante. Mas também a de que algumas histórias não terminam. Apenas seguem por novos caminhos.
Obrigada, Secult Goiás. ❤️