Muitos Nomes e a viandança da artista goianiense pela 36ª Bienal de SP em Goiás

Por Ketllyn Fernandes
Nascida em Goiânia (1986), a artista visual indígena Sallisa Rosa traz para a capital uma obra carregada de significados. Comissionada pela 36ª Bienal de São Paulo, “Muitos Nomes” convida a entrar, observar, circular… A itinerância da 36ª Bienal estreou pelo Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC-GO) em 2 de março. É a primeira vez que nosso estado recebe a mostra. Curiosamente, esta é a primeira vez que Sallisa expõe em Goiânia, cujo tema é “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”, inspirada no poema de Conceição Evaristo. Simbólico, se pensarmos neste encontro de caminhos: o conceito da mostra, 1ª vez que Goiás recebe a Bienal de SP.
Reconhecida por trabalhos em fotografia, vídeo, performance e instalação, Sallisa já apresentou obras em instituições como MASP, Paço das Artes, Museu de Arte do Rio, CCBB, além de espaços internacionais como o SNAP (Xangai), o Visual Arts Center (Austin) e o Théâtre de l’Usine (Genebra). Muitas destas instituições possuem trabalhos da artista em seus acervos.
Nesta entrevista, feita durante a oficina “Esculturas inventadas”, no MAC GO, gratuita e voltada às crianças, Sallisa compartilha o processo de criação de “Muitos Nomes”, obra que constrói labirintos circulares e caminhos orgânicos. “A memória também é atributo das plantas, dos animais, dos rios e de outros seres”, afirma. Confira:
Há algo de especial em mostrar a obra “Muitos Nomes” em Goiás, considerando sua relação pessoal e histórica com esse território? Eu acho que a paisagem da escultura, da instalação, tem muita relação com a paisagem do Cerrado. Muitas pessoas que são de fora do Cerrado, quando veem a obra, falam que agora faz sentido a conexão da obra com eu ser uma pessoa do centro-oeste, do Cerrado, ter essa relação com a natureza daqui. Então eu acho que é uma conversa bonita de pensar a paisagem do Cerrado com a paisagem da obra mesmo. Porque é uma coleta de galhos, e o Cerrado tem essa paisagem que é galhosa mesmo, que é torta, que é contorcida. Então eu acho que é isso.
De que maneira essa obra dialoga com outras investigações suas com o barro e a memória?
É uma boa pergunta, porque muita gente que viu a instalação dos galhos fala: “Você trabalha com a terra, por que agora com os galhos?”. Mas a árvore vem da terra, é cultivada na terra, então os galhos são um arquivo histórico. Fica registrado no caule e nos galhos o que aconteceu com aquela terra — enchente, seca, clima, história. Então continuo trabalhando com a terra e com os galhos. Apesar de a maior parte da instalação ser galhos, há espirais de cerâmica que pontuam e trazem a terra para a obra.
No momento de crise ambiental global, como você vê o papel da arte nessa reconstrução de conexão com a terra?
Eu acho muito complexo. Geralmente a arte trabalha com coisas que têm que ficar eternamente. Trabalhar com a natureza vai na contramão disso. Eu coletei os galhos no Ibirapuera, remontei a obra aqui, depois eles voltam para a natureza. A obra existiu nesse momento, com quem viu. Depois deixa de existir, como a natureza no ciclo de decomposição. Isso é bonito e contra o pensamento do capitalismo, que trabalha com concreto e permanência. A natureza é ciclo: existir, decompor, transformar. Assim é a vida, assim somos nós.
Elas serão devolvidas para a natureza, onde foram coletadas?
Sim, [serão devolvidas] onde foram coletadas. No [parque] Ibirapuera há o trabalho de uma bióloga que transforma galhos de poda em serragem e devolve ao jardim. Os galhos que não usamos viraram serragem e voltaram para as plantas. Assim como esses vão voltar.
Essa obra vai para outro estado, outra cidade da itinerância?
Ainda não tem previsão. Acho que o pessoal da Bienal saberia responder. Eu fiquei sabendo só dessa aqui por enquanto. Se ela circular, mantemos os galhos e a obra circula. Se não, eles voltam para o Ibirapuera, viram serragem e retornam às plantas.
Por Ketllyn Fernandes – artista plástica, jornalista pós-graduada em jornalismo digital